Lebução fica situada em lugar alto e aprazível, na margem esquerda do rio Calvo, entre montanhas onde o tempo guardou riquezas e mistérios. A 25km da sede do concelho, goza de um clima de montanha com invernos frios, verões quentes e de paisagens deslumbrantes.

É uma aldeia tradicionalmente vocacionada para a agricultura (centeio, batata, castanha e vinho) e para o comércio de largas tradições. Em tempos remotos, Lebução, foi o centro das transacções comerciais de uma enorme área circundante, que se efectuavam por troca directa de produtos.

Monumentalmente, a Igreja abraça, do alto das suas torres sineiras, todo o casario disposto em anfiteatro e chama os fiéis à oração. É obra da renascença, de muros altos e bem alinhados, construção de uma só nave. O retábulo do altar-mor, é de apreciável valor artístico, com colunas salomónicas e motivos ornamentais e simbólicos, realçando as arquivoltas que guarnecem a abóbada polícroma da tribuna.O Orago da freguesia é S. Nicolau, mas a principal referência religiosa desta terra é Nossa Senhora dos Remédios, que tem o seu dia no calendário religioso - 8 de Setembro.

Aqui, como em todo o Nordeste de Portugal, usa-se uma linguagem oral, um conjunto de termos e expressões que, pouco a pouco, se vão perdendo com a partida dos mais idosos.

A hospitalidade está presente nas vivências diárias, marcadas por um espírito de partilha e solidariedade. A porta das casas de Lebução está sempre aberta para receber, à boa maneira transmontana, "quem vier por bem".


A ideia deste Blogue, surgiu da necessidade de preservar a identidade desta comunidade, aproximando todos os Lebuçanenses da sua terra natal.

A feira do Folar de Valpaços

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quarta-feira, 8 de maio de 2019

Quando Vier a Primavera


Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera, 
Se eu já estiver morto, 
As flores florirão da mesma maneira 
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. 
A realidade não precisa de mim. 

Sinto uma alegria enorme 
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma 

Se soubesse que amanhã morria 
E a Primavera era depois de amanhã, 
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. 
Por isso, se morrer agora, morro contente, 
Porque tudo é real e tudo está certo. 

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. 
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. 
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
O que for, quando for, é que será o que é. 

(Poemas Inconjuntos, heterónimo de Fernando Pessoa)















































domingo, 14 de outubro de 2018

Uma névoa de Outono o ar raro vela



Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]


Fernando Pessoa




























































sábado, 7 de julho de 2018

domingo, 10 de dezembro de 2017

Ó Portugal, hoje és nevoeiro...



NEVOEIRO

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a hora!















































sábado, 4 de novembro de 2017

No ciclo eterno das mudáveis coisas



No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo inverno após novo outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me infiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.

Fernando Pessoa / Ricardo Reis















































sábado, 7 de outubro de 2017

Ao longe, ao luar



Ao longe, ao luar

Ao longe, ao luar, 

No rio uma vela, 

Serena a passar, 

Que é que me revela ? 

Não sei, mas meu ser 

Tornou-se-me estranho, 

E eu sonho sem ver 

Os sonhos que tenho. 


Que angústia me enlaça ? 

Que amor não se explica ? 

É a vela que passa 

Na noite que fica.

Fernando Pessoa















































sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Nevoeiro _ Fernando Pessoa



Nevoeiro _ Fernando Pessoa


Neste poema, Fernando pessoa transmite-nos uma imagem triste, desencantada do País e dos portugueses.
O nevoeiro envolve os portugueses, não os deixando ver a realidade de uma forma clara e racional. 
Perdidos… não encontram o caminho do futuro.
Agarrados ao passado, esperam uma força divina, que, chegando, dissipe o nevoeiro e o salve da letargia em que se encontram.
Mas Fernando Pessoa, também nos deixa uma palavra de ordem, “É a Hora”!
Só que essa hora ainda não chegou. E ontem como hoje a História repete-se.
José Afonso, numa das suas canções, diz: “ o que faz falta é animar a malta, o que faz falta”……
Mas o que realmente faz falta é educar a malta. Educar para uma cidadania plena. O País não vai lá só com lamentos.
Os portugueses, sabem lamentar-se como nenhum outro povo, como se fosse um vício. Lamentos inconsequentes, aos quais o poder já não dá importância. Lamentos sem força, sem unidade, como se fosse uma desculpa, para o estado a que o país chegou.
O País não vai lá só com lamentos, é necessário educação, acção e convicção.
A desculpa de meio século de um regime salazarista (que como bem disse Sophia de Mello Breynner “teve o mérito de tornar a alma dos portugueses mais pequena”), já não se aceita!
É necessário agir! Tomar consciência dos direitos e deveres de uma cidadania plena e levar o país para a frente!
No fundo o que quero dizer é que o País somos todos nós - portugueses - e se não acreditarmos em nós, quem acreditará?
Se cada um de nós procurar o seu caminho, a sua razão de existir, o seu orgulho de ser português, (e conseguir com isso, desenvolver um projecto de vida, sólido e com base no conhecimento), estamos de alguma forma a contribuir para cumprir Portugal.
Juntando a minha voz à de Fernando Pessoa, repito e acrescento, É a hora! É agora! Ou então nunca mais…
Fonte: Maria da Graça Gomes














































terça-feira, 20 de maio de 2014

A água caíu do céu e regou os campos



Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...
         Fernando Pessoa






































segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Toda a paz da Natureza




Eu nunca guardei rebanhos,

Mas é como se os guardasse.

Minha alma é como um pastor,

Conhece o vento e o sol

E anda pela mão das Estações

A seguir e a olhar.

Toda a paz da Natureza sem gente

Vem sentar-se a meu lado.

Mas eu fico triste como um pôr de sol

Para a nossa imaginação,

Quando esfria no fundo da planície

E se sente a noite entrada

Como uma borboleta pela janela.


Mas a minha tristeza é sossego

Porque é natural e justa

E é o que deve estar na alma

Quando já pensa que existe

E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.


Como um ruído de chocalhos

Para além da curva da estrada,

Os meus pensamentos são contentes.

Só tenho pena de saber que eles são contentes,

Porque, se o não soubesse,

Em vez de serem contentes e tristes,

Seriam alegres e contentes.


Pensar incomoda como andar à chuva

Quando o vento cresce e parece que chove mais.


Não tenho ambições nem desejos

Ser poeta não é uma ambição minha

É a minha maneira de estar sozinho.


E se desejo às vezes

Por imaginar, ser cordeirinho

(Ou ser o rebanho todo

Para andar espalhado por toda a encosta

A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,

Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz

E corre um silêncio pela erva fora.


Quando me sento a escrever versos

Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,

Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,

Sinto um cajado nas mãos

E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,

Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,

Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,

E sorrindo vagamente como quem não compreende o que

se diz

E quer fingir que compreende.


Saúdo todos os que me lerem,

Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta

Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.


Saúdo-os e desejo-lhes sol,

E chuva, quando a chuva é precisa,

E que as suas casas tenham

Ao pé duma janela aberta

Uma cadeira predileta

Onde se sentem, lendo os meus versos.


E ao lerem os meus versos pensem

Que sou qualquer cousa natural —

Por exemplo, a árvore antiga

À sombra da qual quando crianças

Se sentavam com um baque, cansados de brincar,

E limpavam o suor da testa quente

Com a manga do bibe riscado.


Alberto Caeiro, Heterónimo de Fernando Pessoa













sexta-feira, 13 de maio de 2011

A Trovoada






Esta tarde a trovoada caiu

Pelas encostas do céu abaixo

Como um pedregulho enorme...

Como alguém que duma janela alta

Sacode uma toalha de mesa,

E as migalhas, por caírem todas juntas,

Fazem algum barulho ao cair,

A chuva chovia do céu

E enegreceu os caminhos ...



Quando os relâmpagos sacudiam o ar

E abanavam o espaço

Como uma grande cabeça que diz que não,

Não sei porquê — eu não tinha medo —

pus-me a rezar a Santa Bárbara

Como se eu fosse a velha tia de alguém...



Ah! é que rezando a Santa Bárbara

Eu sentia-me ainda mais simples

Do que julgo que sou...

Sentia-me familiar e caseiro

E tendo passado a vida

Tranqüilamente, como o muro do quintal;

Tendo idéias e sentimentos por os ter

Como uma flor tem perfume e cor...



Sentia-me alguém que nossa acreditar em Santa Bárbara..

Ah, poder crer em Santa Bárbara!



(Quem crê que há Santa Bárbara,

Julgará que ela é gente e visível

Ou que julgará dela?)



(Que artifício! Que sabem

As flores, as árvores, os rebanhos,

De Santa Bárbara?...Um ramo de árvore,

Se pensasse, nunca podia

Construir santos nem anjos...

Poderia julgar que o sol

É Deus, e que a trovoada

É uma quantidade de gente

Zangada por cima de nós ...

Ali, como os mais simples dos homens

São doentes e confusos e estúpidos

Ao pé da clara simplicidade

E saúde em existir

Das árvores e das plantas!)



E eu, pensando em tudo isto,

Fiquei outra vez menos feliz...

Fiquei sombrio e adoecido e soturno

Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça

E nem sequer de noite chega.