Lebução fica situada em lugar alto e aprazível, na margem esquerda do rio Calvo, entre montanhas onde o tempo guardou riquezas e mistérios. A 25km da sede do concelho, goza de um clima de montanha com invernos frios, verões quentes e de paisagens deslumbrantes.

É uma aldeia tradicionalmente vocacionada para a agricultura (centeio, batata, castanha e vinho) e para o comércio de largas tradições. Em tempos remotos, Lebução, foi o centro das transacções comerciais de uma enorme área circundante, que se efectuavam por troca directa de produtos.

Monumentalmente, a Igreja abraça, do alto das suas torres sineiras, todo o casario disposto em anfiteatro e chama os fiéis à oração. É obra da renascença, de muros altos e bem alinhados, construção de uma só nave. O retábulo do altar-mor, é de apreciável valor artístico, com colunas salomónicas e motivos ornamentais e simbólicos, realçando as arquivoltas que guarnecem a abóbada polícroma da tribuna.O Orago da freguesia é S. Nicolau, mas a principal referência religiosa desta terra é Nossa Senhora dos Remédios, que tem o seu dia no calendário religioso - 8 de Setembro.

Aqui, como em todo o Nordeste de Portugal, usa-se uma linguagem oral, um conjunto de termos e expressões que, pouco a pouco, se vão perdendo com a partida dos mais idosos.

A hospitalidade está presente nas vivências diárias, marcadas por um espírito de partilha e solidariedade. A porta das casas de Lebução está sempre aberta para receber, à boa maneira transmontana, "quem vier por bem".


A ideia deste Blogue, surgiu da necessidade de preservar a identidade desta comunidade, aproximando todos os Lebuçanenses da sua terra natal.

A feira do Folar de Valpaços

domingo, 21 de março de 2010

A Tília foi Brutalmente Cortada


A "minha" tília foi derrubada.

Depois de várias investidas frustradas, conseguiram deitá-la ao chão. Já antes a tinham decepado, cortando-lhe dois imponentes ramos.

E em toda esta história destaca-se este gigante de tronco grosso e braços levantados ao céu que, heroicamente, resistiu, enquanto teve forças, às investidas do tempo e do homem.

Suportou os rigores de muitos invernos e os verões escaldantes queimaram-lhe as folhas. O luar, branco inundou-a de luz, tantas vezes, e tornou mais brilhantes as folhas prateadas a que a tília dava vida.

Olho para o tronco retalhado, espalhado pelo chão, e vem-me à memória o meu pai e um madeireiro interessado na compra, já lá vão uns anos, --dou-lhe cem contos pela árvore. Mas o meu pai respondeu, ofendido e determinado: nem por mil contos a venderia!

Porque a nossa tília sempre acompanhou, do alto da sua ramagem e dos muitos, muitos anos, a minha família, durante cinco gerações. Viveu as nossas alegrias e chorou, connosco, quando a desgraça nos bateu à porta.

Plantada pelo meu bisavô, Francisco Bernardo Pimenttel, num lugar alto, donde avistava todo o casario, assistiu ao desenrolar das vidas desta gente e ao nascer do sol nos "Outeiros".

Olho para o chão, novamente. Ali está o tronco retalhado, cheio de seiva, e as memórias são brutalmente dolorosas:

Ali está de novo o meu pai, a organizar a lenha para o Inverno, debaixo da tília, que o protegia e lhe ouvia os queixumes. E como eles conversavam nessas tardes de Primavera e Outono...

... Nem por mil contos a venderia!

Ela era parte da nossa família, era nossa. Durante mais, muito mais de um século foi tratada e acarinhada.

Era com muito cuidado que lhe tirávamos meia dúzia de flores para o chá.

Olho para o chão, mais uma vez, onde ela continua desfeita, retalhada, vencida pelo homem.

As recordações atingem-me como raios fulminantes e eu não consigo libertar-me delas.

Oiço a sª Amélia Lavrador, a sª Amélia da Praça, dizer: Quando a tília está em flor, a Praça fica com um cheiro que até dá gosto.

A Primavera está cá. Desta vez, na Praça, não vão sentir aquele cheirinho de flor de tília, e ela, a tília, jamais verá aparecer o sol nos Outeiros. O meu pai, já há muitos anos, que não procura o abrigo dos seus ramos para preparar a lenha para o Inverno.

E ela está vencida, derrotada, retalhada, espalhada pelo chão.

Antes de tombar, dizem, elevou uma prece aos céus, pedindo um sono suave e tranquilo para aqueles que foram a sua família e que acompanhou, de ramos curvados, à última morada.




A tua folhagem foi cortina,
Foi manto a cobrir-me a juventude,
Foi berço dos meus sonhos de menina,
Dos amores meus, amena quietude.


Fui menina na sombra dos teus dedos,
Fui mulher no leito dos teus braços,
Em silêncio foste cofre de segredos,
Para mim, o mais doce dos regaços.


Escondeste sonhos meus de amor,
Colheste minhas lágrimas de dor,
Ouviste meus amores, meus desenganos,

Foste o meu remanso e o meu ninho.
O vento norte punha em desalinho
O rosário de folhas dos teus ramos...


(Autor desconhecido)

9 comentários:

Visitante Diária disse...

Confesso que tenho andado distraida e não tinha reparado no corte da Tília,acho que é um crime o abate desta arvore.Mas por curiosidade quem fez tão grande maldade?

UM abraço desta visitante diária

José Doutel Coroado disse...

Cara Profª Graça,

belo panegírico a uma árvore, não me recordo de algum dia ter lido um texto com tanta densidade sobre uma árvore que foi "caída".
abs

Armando Sena disse...

A natureza tem essa capacidade de se renovar. Que tal aproveitar o dia da árvore para plantar uma nova?
Terra de tílias, Lebução. Havia uma também enorme a cerca de 100 metros dessa. Acabaram por se levar pouco tempo. Quem sabe, almas gémeas?

Graça Gomes disse...

Olá Visitante Diária!
É uma coisa que eu não entendo, essa de te manteres anónima quando, tudo leva a crer, que já não o és...
O terreno onde estava plantada a tília coube, por herança, em partilha de bens, ao meu irmão Henrique.
Mas ele não esteve cá...

Rui André Martins disse...

Estou a imaginar o vazio que se sente naquele lugar.
Que lucro terá dado o abate da Tilia?
Provavelmente incomodava a alguma vizinhança,mas isto é apenas uma hipótese.

Graça Gomes disse...

Olá Rui!
Penso da mesma maneira. Há pessoas que tudo ou quase tudo as incomoda.
Mas que o acto é reprovável, lá isso é.
Um beijo

Paulo C. disse...

Com que então uma árvore centenária foi cortada, em Lebução. E logo uma tília, uma perfumada tília.
Além de ser um atentado ambiental, é duma crueldade sem limites.
Fiquei emocionado com o texto que escreveu, prof. Graça. É duma intensidade emocional que faz doer.
Lamento, com todas as minhas forças, a insensibilidade das pessoas.

Afonso Carneiro disse...

Amiga Graça

Lebução, terra de Tílias, já alguém o disse neste espaço!!! Será que ainda existe alguma na nossa Terra?
Como dizia a minha tia Amélia, a tília é uma árvore com carateristicas ímpares, a saber:
Sombra agradável,muito cheirosa,a flor da tília é usada para infusões calmantes, e como são ricas em nectar as abelhas visitam-na muitas vezes proporcionando assim a base para um mel de boa qualidade, a sua casca serve para tratar infeções hepático- biliares e além disso é resistente à poluição; como entendo a tua indignação!!! Minha amiga...
De consolo deixo-te um poema de uma grande poetisa.

Diz-me a tília a cantar: "Eu sou sincera,
Eu sou isto que vês: o sonho, a graça,
Deu ao meu corpo, o vento, quando passa,
Este ar escultural de bayadera...

E de manhã o sol é uma cratera,
Uma serpente de oiro que me enlaça...
Trago nas mãos as mãos da Primavera...
E é para mim que em noites de desgraça

Toca o vento Mozart, triste e solene,
E à minha alma vibrante, posta a nu,
Diz a chuva sonetos de Verlaine..."

E, ao ver-me triste, a tília murmurou:
"Já fui um dia poeta como tu...
Ainda hás de ser tília como eu sou..."

Florbela Espanca

Beijos

Até sempre.

Bruno Salvador disse...

Surpreendente, intenso e comovente este lindo texto que aqui nos deixa.
Nesta nossa curta passagem pela vida, há lugares, cheiros, pessoas, animais, pedras, árvores, flores, rios, mares…etc., que nos prendem e marcam profundamente. Fazem parte do nosso património, do património da nossa memória, da nossa vida. Um património sem preço e sem igual, que jamais, algum dia, alguém poderá comprar. Um património vivo, de memórias intensas e ligações geracionais. Quando o destroem, é como se levassem um pouco de nós. Ficam memórias e saudades que as gerações futuras dificilmente saberão partilhar.
Aos que insensivelmente nos “matam cá dentro”, destruindo os nossos elos de ligação com o passado, com a nossa natureza…
Aos que insensivelmente não choram a mesma lágrima que esta tília derramou…

A esses mesmos digo, o que a tília um dia murmurou:

"Já fui um dia poeta como tu...
Ainda hás-de ser tília como eu sou..."

Florbela Espanca

Beijos