Lebução fica situada em lugar alto e aprazível, na margem esquerda do rio Calvo, entre montanhas onde o tempo guardou riquezas e mistérios. A 25km da sede do concelho, goza de um clima de montanha com invernos frios, verões quentes e de paisagens deslumbrantes.

É uma aldeia tradicionalmente vocacionada para a agricultura (centeio, batata, castanha e vinho) e para o comércio de largas tradições. Em tempos remotos, Lebução, foi o centro das transacções comerciais de uma enorme área circundante, que se efectuavam por troca directa de produtos.

Monumentalmente, a Igreja abraça, do alto das suas torres sineiras, todo o casario disposto em anfiteatro e chama os fiéis à oração. É obra da renascença, de muros altos e bem alinhados, construção de uma só nave. O retábulo do altar-mor, é de apreciável valor artístico, com colunas salomónicas e motivos ornamentais e simbólicos, realçando as arquivoltas que guarnecem a abóbada polícroma da tribuna.O Orago da freguesia é S. Nicolau, mas a principal referência religiosa desta terra é Nossa Senhora dos Remédios, que tem o seu dia no calendário religioso - 8 de Setembro.

Aqui, como em todo o Nordeste de Portugal, usa-se uma linguagem oral, um conjunto de termos e expressões que, pouco a pouco, se vão perdendo com a partida dos mais idosos.

A hospitalidade está presente nas vivências diárias, marcadas por um espírito de partilha e solidariedade. A porta das casas de Lebução está sempre aberta para receber, à boa maneira transmontana, "quem vier por bem".


A ideia deste Blogue, surgiu da necessidade de preservar a identidade desta comunidade, aproximando todos os Lebuçanenses da sua terra natal.

A feira do Folar de Valpaços

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Hoje Em Lebução Cantam-se Os Reis


Os três Reis Magos, Gaspar, Baltazar e Belchior, vieram do Oriente visitar o Menino Jesus. Já perto de Belém não sabiam qual seria o primeiro a dar o presente ao Menino. Vendo a dúvida dos Reis, diz a lenda, um homem mandou fazer um bolo e colocar dentro uma fava. Esse bolo seria dividido em três pedaços e quem ficasse com a fava seria o primeiro a entregar o presente ao Menino Deus. Daí para a frente esse bolo ficou conhecido como Bolo dos Reis Magos ou, simplesmente, Bolo-Rei. Por isso o bolo tem a forma de uma coroa, onde a côdea simboliza o ouro, o miolo a mirra e o aroma o incenso, presentes oferecidos pelos reis ao Menino Jesus.
Em Lebução a quem sair a fava do Bolo Rei terá que o pagar no ano seguinte. É uma tradição que ainda se vai mantendo.
O dia de Reis comemora-se hoje, dia 6 de Janeiro.
Já de noite grupos de pessoas juntam-se e vão pelas portas dos amigos cantar os Reis, canções tradicionais da vida de Jesus e saudações e louvores à família homenageada e donos da casa.
O canto é acompanhado por instrumentos populares como: os ferrinhos, o bombo, o acordeão... Depois de cantarem, os donos da casa, convidam os cantadores para entrar e oferecem-lhes comida e bebida.


Em Lebução cantam-se, ou cantavam-se, assim os Reis:



Inda agora aqui cheguei

Puz o pé nesta escada

Logo o meu coração disse

Aqui mora gente honrada


Refrão

Alegres festas

lhe vimos dar

E o Deus Menino

A acompanhar

Alegres festas

lhe vimos dar

E o Deus Menino

a acompanhar



Quem diremos nós que viva

Cravinho branco ao peito

Viva o dono desta casa

Que é um homem de respeito



( Refrão)



Quem diremos nós que viva

Entre o calor e a brasa

Viva lá a senhora Joana

Que alumia toda a casa


( Refrão)



Quem diremos nós que viva

Por cima do meu chapéu

Viva lá a menina Rita

Qué um anjinho do céu


(Refrão)



Se nos querem dar os reis

Não estejam a demorar

Nós somos de muito longe

Temos caminho prá andar



(Já depois de terem comido e bebido, os cantadores despediam-se da casa, assim:)



Despedida, despedida

Diz a cereja ao ramo

Também nós nos despedimos

Queira Deus que dhoje a um ano.


(Algumas vezes, sabe-se lá porquê, a porta de casa não se abria e então a despedida era bem diferente:)


Estes Reis que aqui cantemos

Tornemos a descantar

Estes barbas de farelo

Não têm nada que nos dar.

Esta última informação, que inclui as duas quadras de despedida, foi-me facultada pelo meu amigo Afonso Lavrador Carneiro que a ouviu contar/cantar a sua mãe, Ana Lavrador.

13 comentários:

Armando Sena disse...

Lindo...ao som de um acordeão soa divinal

Afonso Carneiro disse...

Graça,
Vê por favor se estes versos podem rematar a cantiga de Reis:

Despedida, despedida
diz a cereja ao ramo
também nós nos depedimos
queira deus que de hoje a um ano.

Estas seriam as despedidas se o cantar dos Reis fosse bem sucedido.

Ou,se fosse mal sucedido:

Estes Reis que aqui cantemos, tornemos a descantar,
estes barbas de farelo,
não tem nada que nos dar.

Estes versos foram ditados pela minha Mãe.

celestino disse...

Desta forma, sim, deve ser mantida e revivida a tradição.
Aqui pela sede do concelho transformaram a tradição naquilo a que eu chamo a pedinchice (tudo anda à procura do vil metal). E não lhes basta o dia de Reis. è antes e depois.
Espero que não te saia a fava, minha amiga.

Graça Gomes disse...

Viva o menino Celestino
Os anos que ele deseja
Viva também uma rosa
Que recebeu na igreja!

(Estava feita se o teu casamento fosse só civil! Bem podia meter a viola no saco...)

Um beijo

Graça Gomes disse...

Quem diremos nós que viva
Entre o calor e a brasa
Viva lá o menino Bruno
Qué a alegria da casa.

Anónimo disse...

Estava à espera que me cantasses os Reis a mim, mas tu só te relacionas com arquitectos e advogados.
Tenho pena, tenho mesmo muita pena.

Bruno Salvador disse...

Prof. Graça,
Mais uma vez encantado com este blogue, onde se descobrem “cousas nobres de outrora”.

Fico sempre maravilhado com a sabedoria, arte e engenho das histórias e cantares populares. Nesta época de Reis, são muitos os cânticos que nos trazem à memória as brincadeiras desta quadra e as letras tipificadas dos nossos antepassados. Aqui bem perto de Lebução, na maravilhosa terra de Sonim, lembro-me várias vezes de cantar os Reis. Havia inclusive quem, em tom de brincadeira, tivesse alheiras de pão em casa para distribuir por aqueles cantores que lhes fossem bater à porta.
No entanto, nós, crianças na altura, éramos muito práticos e incisivos. Os nossos cantares resumiam-se ao "quiqueriquiqui, se não nos dão os Reis mijêmos-lhe aqui"... e resultava.
Levávamos sempre a cesta cheia para casa...
Bem!!!..., nem sempre...
Por vezes ia cheia das ditas alheiras de pão.

P.S. (OBRIGADO PELA QUADRA QUE ME DEDICOU)

Graça Gomes disse...

É sempre muito agradável, Bruno, ver os teus sábios e sentidos comentários. Também tu tens uma forte ligação à aldeia, Sonim, onde tens as tuas raízes familiares.
E eu sei o quanto gostas dessa terra! Melhor, o quanto tens feito por ela.
Além de outras, temos esta afinidade: Valorizamos as nossas raízes. Temos um grande orgulho daquilo que somos, do legado dos nossos antepassados.
Obrigada por todo o apoio.
Um beijo enorme.

Graça Gomes disse...

Esta é para o anónimo que, presumo, não o seja tanto como ele pensa:
Passava por aqui, por Lebução, há muitos anos (contou-me a minha mãe)
um ambulante, vendedor de qualquer coisa. As pessoas pediam-lhe para cantar ao que ele respondia:
Eu até canto bem, mas falta-me a cantiga.
Contigo, anónimo, acontece a mesma
coisa. Eventualmente até podes cantar bem mas, decididamente, falta-te a cantiga...

Leandro disse...

como ainda nao comentei aqui desde o ano passado...

desejo um feliz 2010 cheio de coisas boas! espero que a passagem de ano tenha sido boa!


é uma pena ver que tal festa este ano ficou meio que esquecida, já nao é como antigamente quando se juntava quase toda a gente num sitio (normalmente o café do Mário) a dançar pela noite fora...

mas bom, mesmo assim foi bom ter regressado a Lebução por uns dias e ter visto as lindas paisagens cheias de neve!

ainda andei "perdido" pelo meio do monte, indo ali pelo caminho da Rua do Bairro, a seguir á praça! gosto imenso de passear assim pelo meio da natureza, deu pra matar algumas saudades!!

Um beijo e mais uma vez, um feliz ano!!

Graça Gomes disse...

Olá, Leandro! Já tinha saudades tuas. Um muito Bom Ano para ti, também.
Lebução, no Inverno, é mesmo assim.
Vale o podermos desfrutar das coisas boas que tem!
Já não és o primeiro que se perde para esses sítios.
Há uns anos tive que indicar a saída a um prof. da EB23 que se aventurou, de bicicleta, por esse labirinto de caminhos.
Um beijo

Bruno Salvador disse...

Prof. Graça,
Para rematar estes versos desta bela cantiga de reis, no caso de correr mal e ninguém abrir a porta, em Sonim tinha-mos o hábito de cantar assim;

Estes Reis que aqui cantemos
Tornemos a descantar
Estes barbas de farelo
Não têm nada que nos dar
Só têm um caixote velho
Onde os ratos vão "cagar".

Um beijo

Graça Gomes disse...

Esse remate, Bruno, é excelente!
Pode ser que ainda precisemos dele este ano. Nunca se sabe.
Obrigada por todo o apoio.
Beijo