Lebução fica situada em lugar alto e aprazível, na margem esquerda do rio Calvo, entre montanhas onde o tempo guardou riquezas e mistérios. A 25km da sede do concelho, goza de um clima de montanha com invernos frios, verões quentes e de paisagens deslumbrantes.

É uma aldeia tradicionalmente vocacionada para a agricultura (centeio, batata, castanha e vinho) e para o comércio de largas tradições. Em tempos remotos, Lebução, foi o centro das transacções comerciais de uma enorme área circundante, que se efectuavam por troca directa de produtos.

Monumentalmente, a Igreja abraça, do alto das suas torres sineiras, todo o casario disposto em anfiteatro e chama os fiéis à oração. É obra da renascença, de muros altos e bem alinhados, construção de uma só nave. O retábulo do altar-mor, é de apreciável valor artístico, com colunas salomónicas e motivos ornamentais e simbólicos, realçando as arquivoltas que guarnecem a abóbada polícroma da tribuna.O Orago da freguesia é S. Nicolau, mas a principal referência religiosa desta terra é Nossa Senhora dos Remédios, que tem o seu dia no calendário religioso - 8 de Setembro.

Aqui, como em todo o Nordeste de Portugal, usa-se uma linguagem oral, um conjunto de termos e expressões que, pouco a pouco, se vão perdendo com a partida dos mais idosos.

A hospitalidade está presente nas vivências diárias, marcadas por um espírito de partilha e solidariedade. A porta das casas de Lebução está sempre aberta para receber, à boa maneira transmontana, "quem vier por bem".


A ideia deste Blogue, surgiu da necessidade de preservar a identidade desta comunidade, aproximando todos os Lebuçanenses da sua terra natal.

A feira do Folar de Valpaços

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A mesma imagem para outras palavras, dedicadas a Alexandre Parafita



“MEMÓRIAS DE UM SIMPLES”


“atrevidamente dedicado
a
Alexandre Parafita”



Esta porta dava para o quinteiro, outrora coberto por uma ramada de uva bastarda.

Por aí se chegava às escaleiras que levavam à varanda, onde se penduravam as maçarocas do milho, onde estendia um liteiro, lugar de pouso de espigas ou de chícharros secos, umas e outros prontos a desfolhar e a descascar, e num topo onde a máquina de costura ajudava a pôr umas cuadas nas calças, a fazer uma saia ou uma blusa, debruar uma avental ou deitar uma bainha a um lençol.

E a porta, sempre aberta, convidava à entrada na ampla cozinha, de lareira sempre acesa durante os nove meses de Inverno, encimada pelo caldeiro de cobre pendurado numa corrente de ferro, e bordejada por três ou quatro potes, acertadamente temperados e cada qual destinado a fim diferente. Uma trempe mostrava-se sempre ali ao lado, prontinha para se acomodar a um montinho de brasas reluzentes e preparar regalos tão bem combinados com uma fatia de pão centeio. Um pichorro, de quartilho ou de meia canada, cheio ou pronto a descer à adega, lá estava em cima da mesa, feita de madeira de castanho ou de carvalho, a reparar na ansiedade do prato e da faca em receber o petisco.

Os galos, as galinhas, os pitos, os patos e os pardais percorriam os quatro cantos do quinteiro, sempre de papo cheio e de papo feito a reclamar a sua Palestina. Tinam poiso, ninho e poleiro na casota da lenha, assim chamado à arrecadação que dividia a meias o galinheiro e o arrumo das rachas, dos canhotos e dos molhos de carqueja que ajudam à fama e às saudades das nossas lareiras.

A um lado dos primeiros degraus da escaleira fica a porta da adega; a outro lado, a casa das batatas - modo modesto de se dizer que num lado e noutro há sempre mais qualquer coisa para mimar um amigo ou uma visita.

Da parede do lado oposto, frente a esta porta que dá para a rua, havia um outra porta, que dava para a cortinha. Aqui era a horta mais próxima de casa. E lá ao fundo, um pequeno campo de erva, onde ELA, munida de seitoura e cordel ia segar um molho para dar ao gado.

Da carvalheira limítrofe espreitavam uns olhos, ansiosos pela aproximação da sua menina.

ELA estava cheia de pressa em chegar ao fundo da cortinha. Mas para que nem o pai nem a mãe desconfiassem, caminhava tão devagar que os obrigava, muitas vezes, a gritarem-lhe: vê lá se te despachas!

O muro do fundo da cortinha era alto. Mas não assim tão alto que impedisse que um primeiro beijo sôfrego, ardente, saudoso logo fosse trocado.

Segada mais uma gabela, ficavam mais próximo daquele pedaço de muro onde ele havia roubado uma fiada de pedra e por onde podia deslizar para dentro da cortinha.

O tronco de uma frondosa nogueira escondia-os dos olhares de casa.

Gabela sim, gabela não ditavam os arrulos amorosos, apaixonados e tão insatisfeitos de ambos.

ELE teve de partir.
ELA teve de ficar.
A tragédia do Português começou em Alcácer.
Continua pelos sete mares.
Hoje, apenas há um romeiro, que pega nas “Memórias dos simples” e reza junto a esta porta:

“Eis-me roto e descalço… mas que importa
Andar roto e descalço e pobre assim,
Se chego exausto à beira desta porta,
Mas tenho alguém lá dentro a esperar por mim?”.

ELE é
o
Romeiro de Alcácer

M., 03 de Fevereiro de 2014






















Sem comentários: